sexta-feira, 24 de novembro de 2006

A vida é como um piquenique

A vida é como um piquenique em uma tarde de domingo -- ela não dura muito tempo. Só olhar o sol, sentir o perfume das flores ou respirar o ar puro já é uma alegria. Mas se tudo o que fazemos é ficar discutindo onde pôr a toalha, quem vai sentar em que canto, quem vai ficar com o peito ou a coxa do frango..., que desperdício! Mais cedo ou mais tarde o tempo fecha, a tarde cai e o piquenique acaba. E tudo o que fizemos foi ficar discutindo e implicando uns com os outros. Pense em tudo que se perdeu.

Você pode estar se perguntando: se tudo é impermanente, se nada dura, como pode alguém viver feliz? É verdade que não podemos, de fato, agarrar ou nos segurar às coisas, mas podemos usar esse conhecimento para olhar a vida de modo diferente, como uma oportunidade muito breve e rara. Se trouxermos à nossa vida a maturidade de saber que tudo é impermanente, vamos ver que nossas experiências serão mais ricas, nossos relacionamentos mais sinceros, e teremos maior apreciação por tudo aquilo que já desfrutamos.

Também seremos mais pacientes. Vamos compreender que, por pior que as coisas possam parecer no momento, as circunstâncias infelizes não podem durar. Teremos a sensação de que seremos capazes de suportá-las até que passem. E com maior paciência seremos mais delicados com as pessoas a nossa volta. Não é tão difícil manifestar um gesto amoroso quando nos damos conta de que talvez nunca mais estaremos com a nossa tia-avó. Por que não deixá-la feliz? Por que não dispor de tempo para ouvir todas aquelas histórias antigas?

Chegar à compreensão da impermanência e ao desejo autêntico de fazer os outros felizes nesta breve oportunidade que temos juntos, constitui o começo da verdadeira prática espiritual. É esse tipo de sinceridade que efetivamente catalisa a transformação em nossa mente e em nosso ser.

Não precisamos raspar a cabeça nem usar vestes especiais. Não precisamos sair de casa nem dormir em uma cama de pedras. A prática espiritual não requer condições austeras -- apenas um bom coração e a maturidade de compreender a impermanência. Isso nos fará progredir.
Chagdud Tulku Rinpoche, em "Portões da Prática Budista".

8 comentário(s):

Jorge disse...

Também é verdade que as nossas conquistas no campo tecnológico ajudaram, e ajudam muito, no desenvolvimento do nosso ser enquanto espírito... Obrigado. Tenho 17 anos e, pelo que vi até agora, uma
história bem parecida com a sua também. À menos de uma semana atrás não sabia o que era ayahuasca, igreja huasqueira, nada disso. Mas parece que algumas coisas são inevitáveis nessa vida. Às vezes parece-me que o livre- arbítrio é só mais uma ilusão... O nome da reportagem (traduzida) na Rolling Stone Brasil, (número 1, edição de outubro de 2006) era: "O guru do fim do mundo: Combinando alucinógenos e apocalipse, o escritor norte-americano Daniel Pinchbeck lidera uma elite psicodélica que acredita no Santo Daime e em outras substâncias como solução para os males da humanidade". Foi aí. Corri para o computador. Pesquisei, li, me surpreendi. Era tudo o que eu procurava naquele momento. Achei seu blog e me emocionei. O budismo sempre me atraiu, nunca pratiquei, mas não vejo o momento de fazê-lo. Eu procurava por experiências psicodélicas pra fugir da realidade mesmo, como você disse. Mas também não tive nenhuma ainda (a não ser as minhas viagens com música eletrônica, minhas reflexões...) A adolescência é uma fase de assimilação não é? Pois então, procurava (e procuro), uma identidade, não sei, acho que essa não é a palavra, mas eu preciso de um caminho, um sentido. Não dá pra continuar assim. Não vou bem no colégio, sou um pouco complexado, e há um problema nas pessoas (generalizando) quanto a minha sexualidade. Aliás, foi por ela que tudo se desenvolveu até aqui. Refletir Refletir Refletir. Sobre mim mesmo, sobre o mundo. Tento, ao longo desses meus 17 anos de vida, compreender à mim mesmo e as pessoas que me cercam. Isso me levou à um amadurecimento precoce em relação aos outros garotos da minha idade, tenho consciência para reconhecer isso. Mas sinto que há um vácuo dentro de mim. Não é fácil. Há ainda muito sofrimento. Pressão. Não quero mais isso. Meus pais desconfiam da minha homossexualidade, pressionam, querem me ver namorar alguma garota, eu quero falar, discutir, mas quando vejo minha mãe falar “que horror!” diante de um casal gay, ou a total falta de informação do restante da família... Por que é tão difícil encarar a realidade? Buda nos ensina que é preciso escolher o caminho do meio e levar uma vida justa pra com nós mesmos, correta. Pois bem, eu também quero amar, encontrar o meu companheiro, trabalhar, ser feliz mesmo, estar realizado. E poder “realizar” alguém em todos esses sentidos. Eu sinceramente acho que os animais agem da forma correta seguindo os seus instintos, a sua essência... Acho que também busco isso, preciso disso, disciplina, equilíbrio entre mente e corpo, vida saudável. Infelizmente moro um pouco afastado dos grandes centros, não tenho acesso ao budismo ainda, a não ser por meio da leitura, não conheço a rotina, os rituais... Você representa uma referência para mim, um ‘ideal religioso’, por assim dizer. Parabéns pelo blog , muito obrigado pelo ‘auto-aconselhamento’!

jorge_basilioelirio@hotmail.com

Aiacos disse...

Primeiramente eu quero parabenizar por esse blog maravilhoso. Sempre me interesei sobre os ensinamentos budistas...nunca tive um contato com o budismo, procurei alguma coisa aonde eu pudesse conhecer mais sobre Buda e o budismo, digitei no Google e achei esse Blog; tenho aprendido muitas coisas e tenho sentido uma paz muito grande com todos os ensinamentos,mensagens e, até mesmo, os comentários...esse comentário do Jorge falou muito comigo...e me identifiquei muito com o que ele falou. Tenho procurado me conhecer mais a cada dia, e descobrir a essência das coisas...ouvir o silêncio no barulho! Obrigado a todos!

Emer disse...

Obrigado pelo comentário!

Luiz Braga e Rosangela disse...

Meus caros,

o Samsara é um dos melhores lugares para se ler e conhecer este acervo gratuitamente maravilhoso que é a filosofia budista. Parabéns a todos os envolvidos nesse trabalho. Sou um seguidor independente de Nichiren Daishonin, moro em Petrópolis, Rio de Janeiro e a algum tempo recebo as "newsletters" do Samsara. Esplendidas. Que o Grande Muni nos ilumine hoje e sempre. Boa sorte.

Emer disse...

Olá Luiz,
Obrigadão!
Abs!

Anônimo disse...

Amigo Jorje,antes de mais um olá,e parabéns pela coragem da veracidade das tuas palavras!
Em relação ao teu problema relativo há tua vida privada,ainda não conseguiste perceber que estás certo???
Se não tens muito conhecimento do Budismo,deixa-me que te diga,que exactamente o Dharma( caminho do bem),passa precisamente pela não recusa da verdade que existe dentro de nós!
Não recuses a tua verdade,luta por ela...e,se nessa verdade entra o teu companheiro,luta por ele!!!

Lídia Meireles disse...

A Vida é um é um piquenique.
Lamento apenas que este piquenique,não seja partilhado de igual maneira por toda a humanidade.
Convenhamos,que até a ler estes pequenos comentários estão latentes as diferenças do piquenique!
Estranho pequenique este???

Luiz Braga Neto disse...

o piquenique não é estranho; o estranho é a interpretação do fato. Quando vemos um filme, nem todos os que o assistem, sentem da mesma forma e nem poderiam né? Cada um de nós pensa e age de uma maneira particular. A vida realmente pode ser comparada a um piquenique, só que alguns querem ganhar dinheiro com ele, outros ao invés de comer as guloseimas, querem fazer sexo com as crianças presentes, outros querem roubar a comida para levar pra casa e outros querem simplesmente destruir tudo pois, não gostam de ver ninguém se distraindo ou feliz. Quando a gente não vai a praia, não significa que ela não está lá. Significa que nós não podemos ir ou não queremos. Todo fato ou acontecimento tem sempre interpretações diferentes, como por exemplo: é dando que se recebe, mas posso também dizer que é dando que se engravida. O que faz uma coisa ser ou não ser o que ela pode ou deve ser, é você e não a coisa. Um piquenique pode ser legal para quem gosta ou babaca para quem não gosta. Só depende de nós. O budismo, assim como as antigas religiões pagãs oriundas da Europa e África, nos ensina que não há a quem agradecer por algo bom e também não há a quem culpar por algo ruim, porque tudo o que nos acontece é porque nós permitimos; se o governo faz isso ou aquilo e se a vida aqui ou acolá é melhor ou pior é porque assim as pessoas quiseram para o bem ou para o mal delas mesmas.

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