sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Devoção e venenos emocionais


Buda Amitabha, em Kamakura (Kanagawa, Japão)
Alguns ocidentais convertidos ao budismo relacionam práticas devocionais a religiões que eles não gostam, e assim rejeitam as tradições profundamente devocionais do budismo. Mas há mais coisas aí do que o que eles vêem na superfície. Inicialmente, a devoção Shin* aparenta ser bem dualista, mas quanto mais fundo você for, mais yógica ela se torna.

Alguns ocidentais também parecem não entender que o budismo zen ou tibetano — todos esses caminhos — têm elementos devocionais muito fortes junto com os aspectos meditativos-yógicos. Na verdade, quanto mais fundo você for na dimensão yógica, mais devocional você se torna, porque você compreende o quão não-iluminado você é.

Em algumas abordagens do budismo, você tenta se livrar dos apegos emocionais, mas não no Shin. Queremos fazer tesouros das paixões cegas, dos obscurecimentos, porque eles são o adubo da realização. É difícil fazer as paixões desaparecerem, mas elas podem ser aprofundadas em sabedoria e compaixão. Algumas pessoas usam a palavra "transformar", mas eu não gosto dela. As paixões não se tornam alguma outra coisa, elas se tornam mais pungentes. Dharma pungente. […]
Mark Unno
"The Buddha of Infinite Light and Life" | Tricyle


* budismo shin: é a ramificação do budismo mais praticada no Japão. Gira em torno da devoção ao Buda Amitabha (Amida Butsu). Apesar do autor estar falando de outra escola budista, me tocou esse trecho sobre a devoção e o uso dos venenos no caminho, de certa forma muito similar à abordagem tibetana

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Corpo indestrutível

[…] Então os bodisatvas observam que todos os corpos usados pelos seres vivos no passado, futuro e presente eventualmente perecem; aí eles pensam:

"É incrível como os seres sencientes são tolos e sem consciência. Em meio à vida e a morte, eles recebem incontáveis corpos, que são perecíveis e transitórios, que logo vão retornar à degeneração e extinção: corpos que já se foram, que estão indo, ou que irão — e mesmo assim não conseguem usar seus corpos destrutíveis para conquistar o corpo indestrutível.

Devo aprender tudo que os Budas aprenderam, para concretizar a onisciência, conhecer todas as verdades, e explicar aos seres sencientes a natureza indestrutível da realidade — que é a mesma no passado, presente e futuro, em sintonia com serenidade e tranquilidade absolutas — para fazer com que eles alcancem paz e felicidade duradouras."
Sutra Guirlanda de Flores
(Avatamsaka Sutra, livro 21 - "As Dez Práticas")
"Flower Ornament Scripture"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Livre de preocupações mundanas

Padampa Sangye
O iogue indiano Padampa Sangye, que ensinou no Tibet no século XII (clique na imagem para ampliar)
Até que a pessoa vista a armadura livre de preocupações mundanas, o Dharma transcendental não surgirá em seu ser.
Até que a pessoa desenvolva completamente fé e perseverança no coração, a mera prática ocasional do Dharma não vai ultrapassar o chão e os caminhos.
Até que a pessoa tenha trabalhado para a felicidade de seus inimigos por bastante tempo, ela não vai cortar os laços com opiniões mundanas.
Até que a pessoa permaneça sozinha como o humilde cervo, ela não irá purificar as manchas do apego e ódio.
Até que a pessoa desenvolva a atitude de não precisar de nada que seja mundano, ela não irá parar de buscar as coisas mundanas da vida.
Até que a pessoa fique contente com o que tem, sua mente vazia nunca será satisfeita.
Padampa Sangye (Índia, Tibete - séc. XII)
"Perguntas e respostas sobre o significado essencial", em "Os ensinamentos Mahamudra em símbolos de Padampa Sangye"
"Lion of Siddhas"

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A moeda que tem valor

Nossas prioridades mundanas podem ser irônicas. Colocamos em primeiro lugar aquilo que julgamos ser o que mais desejamos; depois, descobrimos que o nosso desejar é insaciável. Pagar a casa, escrever um livro, fazer o negócio ser bem-sucedido, preparar a aposentadoria, fazer longas viagens — coisas que estão temporariamente no topo de nossa lista de prioridades consomem nosso tempo e energia completamente.

E, então, no fim da vida, olhamos para trás e nos perguntamos o que todas essas coisas significavam.

É como alguém que viaja num país estrangeiro e paga sua viagem na moeda daquele país. Quando chega à fronteira, se surpreende ao tomar conhecimento que a moeda do país não pode ser trocada ou levada.

Da mesma forma, nossas posses e aquisições mundanas não podem ser levadas através do portal da morte. Se confiarmos nelas, nos sentiremos, repentinamente, empobrecidos e roubados. A única moeda que tem qualquer valor quando viajamos pelo limiar da morte é nossa realização espiritual.
Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 - Brasil, 17/11/2002)
"Vida e Morte no Budismo Tibetano"

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O corpo na prática espiritual

O corpo se refere à nossa manifestação física, o aspecto visível, tangível de ser, correspondendo ao nirmanakaya. É a expressão exterior na forma material de nossa mente e energia. É o nível no qual as outras pessoas nos vêem e no qual as vemos.

O corpo contém todos os órgãos dos sentidos, através dos quais nos conectamos com o mundo externo. Interagimos com o ambiente através deles; a sensação se estende para fora em direção ao mundo, portanto de uma certa maneira o ambiente é também parte de nosso corpo. Não estamos fechados dentro de uma parede sólida, e não existe barreira real entre o lado de dentro e o de fora. O corpo é a experiência total de nós mesmos, como seres físicos em um universo material.

O corpo é a base do caminho espiritual. O cuidado, a atenção, que são o fundamento de toda a prática budista, começam com o corpo. Pelo fato de estarmos tão apegados ao corpo e tão identificados com ele, sofremos interminavelmente durante a vida e nos apegamos à existência mesmo após a morte.

Por meio da prática do cuidado, chegamos a perceber que ele é impermanente e não é o eu. Ainda assim, essa percepção não diminui o corpo de maneira alguma; ao contrário, ela nos fornece uma nova apreciação de sua verdadeira função. Com a consciência, as impressões dos sentidos se tornam mais intensas, os movimentos mais graciosos e dignificados, e as ações, mais habilidosas e eficazes.

Tornamo-nos naturalmente mais sensíveis e compreensivos em relação ao ambiente em nível físico, o que faz a ligação com os níveis de fala e mente, como nos comunicamos e como pensamos a respeito do mundo. Do ponto de vista egoísta, o corpo parece nos isolar e nos afastar dos outros; a parede da pele nos divide da atmosfera ao nosso redor e nos fecha em nossas conchas isoladas. Mas de um ponto de vista desperto o corpo é o meio de nos estendermos e tocarmos os outros; ele é o instrumento através do qual desempenhamos as atividades nirmanakaya.
Francesca Fremantle
"Vazio Luminoso", cap. 9


Evento
Retiro de Powa com Lama Tsering Everest, 20 a 22 de novembro no templo Odsal Ling, São Paulo ››informações