terça-feira, 9 de março de 2010

Servir aos seres e aos Budas

Shantideva (Índia, séc. VII)
Os Budas são meus verdadeiros e infalíveis amigos.
Não há limites para os benefícios que eles trazem.
Como mais eu poderia retribuir sua bondade
Senão fazendo os seres vivos felizes?

Ao ajudar os seres, retribuímos àqueles
Que sacrificam suas vidas por nós e mergulham no inferno da Dor Incessante.
Então se seres me causarem grande mal,
Vou lutar para levar a eles apenas benefícios.

Aqueles que se tornaram meus senhores
Por vezes sacrificaram seus próprios corpos.
Por que deveria eu, um tolo, me comportar assim com tanta presunção?
Por que deveria eu não me tornar escravo dos outros?

Budas ficam felizes com a alegria dos seres.
Eles ficam tristes e lamentam quando os seres sofrem.
Ao levar alegria aos seres, então também agrado aos Budas;
Ao prejudicar os seres, também prejudico os Budas.
O Caminho do Bodisatva 6 | 119-122
Shantideva (Índia, séc. VII)
(The Way of the Bodhisattva)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Origem de todo karma

Atribua todas as culpas à única fonte;
Contemple a grande bondade de todos os seres.
Desde um tempo sem início temos falhado em reconhecer nossos inimigos e distinguir entre o que deve ser abandonado e o que deve ser adotado. Assim, todas as nossas tentativas de praticar o Dharma se tornaram esforços do auto-apego. E assim temos errado.

Temos falhado em chegar o mínimo que seja mais perto da liberação e onisciência, desenvolvendo alguma familiaridade anterior. Então, hoje, devemos reconhecer o que é nosso inimigo e o que é amigo.

Como fazemos isso? Não há nada a fazer exceto encarar nosso próprio ego como o inimigo e abandoná-lo, ver os seres sencientes como amigos e cuidar deles. Isso, encarar o auto-apego como o inimigo, é apresentado na linha "Atribua todas as culpas à única fonte".

Então, quaisquer eventos indesejáveis que ocorrerem, não jogue a culpa nos outros. Não seja como o ermitão que sem ninguém por perto, ao espirrar seus preparos por ferver demais, amaldiçoa: "Isso é obra de demônios malignos!".

Atualmente, tendemos a culpar outros fatores sempre que algo indesejável cai sobre nós, dizendo por exemplo que um local é mal assombrado, que fomos vítimas de espíritos, que desagradamos os guias espirituais e por aí vai. Isso é um erro. Você deve, em vez disso, reconhecer seu próprio auto-apego como o alvo para onde direcionar toda culpa. Foi dito:
Com base na fixação no eu,
Surge a percepção de eu e outro;
Dessa divisão surge apego e ódio,
E, através desse encadeamento, todas as consequências negativas.
Já que, como declarado aí, todas as falhas e consequências negativas se originam desse auto-apego, se você vivenciar calamidades causadas pelo ambiente ou pelos seres, se você sofrer o desagrado de entidades excelentes como os budas ou protetores do Dharma, se você tiver infortúnios causados por seres sofrendo como mendigos ou por multidões de seres sencientes, se você for prejudicado por piolhos ou elementos do corpo como prana, bile, fleuma e tudo mais, reconheça que a raiz de tudo isso é o auto-apego.
Sangye Gompa (Tibete, ano 1179 - 1250)
"Explicação pública sobre o treinamento da mente"
"Mind Training"

quarta-feira, 3 de março de 2010

Natureza do samsara

Quando falamos em samsara, parece ser algo ruim. O que é samsara? Para onde você aponta quando identifica o samsara? Quem é samsara? Se você está imaginando quem poderia ser, pode apontar para si mesmo. Cada um de nós é nosso próprio samsara.

Isso está junto ou separado de nós mesmos? Não pode ser encontrado em nenhum outro lugar além da nossa própria existência. Somos nós que vivenciamos sofrimento; somos nós que vivenciamos a alegria. Além disso, somos nós que criamos nosso próprio samsara.

Samsara é criado? Sim, por nós mesmos. Como isso acontece? Criamos o samsara com as aflições mentais, tais como os três venenos: apego, ódio e ilusão. A natureza de todos esses venenos é a ilusão. É isso que cria nosso samsara.

Todos nós aqui temos apego — agarramos uma coisa após a outra. Todos estamos sujeitos à inveja, todos sentimos ódio e todos temos orgulho; e a natureza de todos esses venenos é a ilusão. Isso é o que temos: uma combinação desses cinco venenos.

A natureza deles é o apego a um "eu" como se fosse real, sendo que na verdade não há nenhum "eu" inerente. Essa é uma forma de ilusão. A outra é o apego à existência como sendo real do dualismo de sujeito e objeto. Isso forma a natureza da ilusão, que é a natureza de todos os cinco venenos.
Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)
"Natural Liberation", 1 | 1

segunda-feira, 1 de março de 2010

Criações da mente

É como um pintor
Espalhando diversas cores:
A ilusão agarra diferentes formas,
Mas o espaço não faz distinção.

O espaço não tem forma,
Nenhuma forma há no espaço;
Mas, ainda assim, tirando o espaço,
Nenhuma forma pode ser encontrada.

Na mente não há nenhuma pintura,
E na pintura não há nenhuma mente;
Mas, ainda assim, tirando a mente,
Nenhuma pintura pode ser encontrada.

Essa mente nunca para,
Manifestando todas as formas,
Incontáveis, inconcebivelmente diversas,
Desconhecidas umas das outras.

Assim como um pintor
Não pode ver sua própria mente
Mas pinta devido à mente,
Assim é a natureza de todas as coisas.

A mente é como um artista,
Capaz de pintar os mundos:
Os cinco agregados nascem todos assim;
Não há nada que ela não faça.

Assim é a mente, assim é o Buda;
Como o Buda, os seres sencientes:
Entenda que o Buda e a mente
São em essência inesgotáveis.

Se as pessoas soubessem que as ações da mente
Criam todos os mundos,
Elas veriam Buda
E compreenderiam a verdadeira natureza de Buda.

A mente não fica no corpo,
Nem o corpo fica na mente:
Mas, ainda assim, ela é capaz de executar a atividade de Buda
Livremente, sem precedentes.

Se as pessoas querem realmente conhecer
Todos os Budas de todos os tempos,
Elas deveriam contemplar a natureza do cosmo:
Tudo não é nada além de construções mentais.
Sutra Guirlanda de Flores
(Avatamsaka Sutra, livro 20 - "Elegias no palácio do Paraíso Suyama")
"Flower Ornament Scripture"

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Importância do mestre espiritual

O Buda ensinou que é muito importante ter uma boa relação com seu Lama, porque é o professor que te conecta com os ensinamentos. Se não há nenhum Lama, não há nenhum ensinamento. O Lama é particularmente importante na tradição Vajrayana como a primeira das três raízes, a "raiz das bençãos". Todo o processo da realização depende da influência dele ou dela. Sem o guru, os ensinamentos da linhagem não teriam sido preservados e transmitidos em uma linha ininterrupta. Os tantras internos dizem que o Lama é o Buda, é o Dharma, é a Sangha, o Lama é o senhor de toda a família Vajrayana.

No processo de se abrir para a verdade dos ensinamentos, o Lama é inestimável porque ele — ou ela — te coloca em contato direto com o corpo, fala e mente de Buda. Mesmo se você estudou muitos livros, palavras escritas somente não vão despertar sua natureza iluminada. Apenas um mestre pode clarear o verdadeiro significado e revelar a essência transcendente. Um professor qualificado conhece diversas técnicas liberadoras e transmite o calor das bençãos da linhagem.

Os grandes mestres da antiga Índia e do Tibete expressavam o maior apreço por seus professores. Eles não estavam tentando glorificar esses seres, mas baseados em sua própria experiência e realização, eles sabiam que o Lama é o único acesso verdadeiro aos ensinamentos da linhagem.

Desde o tempo do Buda Shakyamuni, os indivíduos que alcançaram a mais alta realização fizeram isso através da devoção a um professor verdadeiro. Mesmo se você for um grande erudito, que conhece todos os ensinamentos, se você não praticar guiado por um mestre qualificado da linhagem, você não vai ganhar a iluminação. Todas as linhagens têm histórias de grandes alunos que não descobriram sua natureza buda porque não tinham uma conexão com um guia qualificado. Só o conhecimento filosófico nunca é suficiente.
Khenchen Palden Sherab (Tibete, 1942 ~) e
Khenpo Tsewang Dongyal (Tibete, 1950 ~)
"Illuminating The Path"