segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Examinar os ensinamentos

[…] Podemos, também, optar por despertar, em vez de sonhar. Despertar totalmente significa reconhecer a verdade maior, a natureza intrinsecamente pura do corpo, fala e mente. Se quisermos despertar, no entanto, não iremos emergir automaticamente do nosso sono profundo. Precisamos de métodos, e precisamos aplicar esses métodos.

Sabedoria, conhecer nossa natureza verdadeira, é o antídoto para a ignorância, que é não conhecê-la. Ela é a lâmpada que dissipa a escuridão de nossa mente. Por meio do processo tríplice de ouvir, contemplar e meditar sobre os ensinamentos, podemos, enfim, trazer à tona a sabedoria que está subjacente ao nosso conhecimento comum, cotidiano.

Inicialmente, alguém que conhece mais do que nós nos apresenta algo que é mais grandioso do que qualquer coisa que jamais tenhamos conhecido. Mas, ouvir esse ensinamento, mesmo em todos os seus detalhes, não é suficiente para nos fazer acreditar no que ouvimos. A fé cega não é muito útil, pois só a compreensão do que foi ensinado nos levará a atrelar nossas habilidades à nossa prática.

Não importa quão claramente tenhamos entendido o que foi dito, ouvir os ensinamentos por si só, não reduz o sofrimento. Para que isso aconteça, precisamos assimilar a sabedoria que vem com eles. Precisamos pensar sobre eles, fazendo com que nosso intelecto e inteligência lhes dêem suporte, refletindo, questionando, examinando, para ver se o que nos foi ensinado é verdade, se funciona.

Nesse processo de contemplação surgem perguntas. Procuramos respostas, e contemplamos mais uma vez. Se não investigarmos e sondarmos, se não removermos as dúvidas, fazer nossa prática espiritual será como tentar costurar com uma agulha de duas pontas. Não iríamos muito longe. Por meio da contemplação, desenvolvemos uma compreensão mais profunda e uma certeza, além do conhecimento intelectual, além do mero acúmulo de fatos.

Entretanto, até mesmo o que é profundamente compreendido pode ser esquecido. Portanto, repetidamente, aplique essa compreensão em sua experiência até que se torne mais intuitiva. Finalmente, por meio do processo da meditação, nossa sabedoria inerente torna-se completamente óbvia.
Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 - Brasil, 2002)
"Portões da Prática Budista", I | 4


Nos próximos dias, estarei fora e ficarei sem postar até fevereiro. Boas festas!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Onde está o Reino

Disse Jesus:
Se vossos guias vos afirmarem:
eis que o Reino está no Céu,
então, as aves estarão mais perto do céu do que vós;
se vos disserem:
eis que ele está no mar,
então, os peixes já o conhecem...
Pelo contrário, o Reino está dentro de vós
e, também, fora de vós.
Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois os filhos do Pai, o Vivente;
mas se não vos conhecerdes,
então estareis na ilusão,
e sereis ilusão.
Jesus Cristo
"Evangelho de Tomé", 3
 
Feliz Natal a todos!!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Onde está o nirvana

Quando somos idealistas, nós — e muitos praticantes até de países budistas asiáticos — imaginamos que o nirvana existe em algum lugar bem alto nos Himalaias, reservado para monges que meditaram durante toda a vida. Meus próprios professores — e outros mestres maravilhosos como Shunryu Suzuki Roshi — enfatizam que o nirvana deve ser encontrado aqui e agora.

Nos cânticos da manhã e da noite no mosteiro da floresta, recitamos as palavras do Buda, para que o dharma da liberação esteja sempre presente, imediatamente, além do tempo, para ser vivenciado aqui e agora por todos que vêem com sabedoria.

O nirvana aparece quando deixamos ir, quando vivemos a realidade no presente. A tristeza surge quando a mente e o coração são pegos em cobiça, ódio e ilusão. O nirvana surge na ausência disso. O nirvana se manifesta como calma, como amor, como ligação, como generosidade, como claridade, como liberdade imperturbável.

Isso não é diluir o nirvana. Essa é a realidade da liberação que podemos vivenciar, às vezes em um momento e às vezes em maneiras transformadoras que mudam nossa vida inteira.
Jack Kornfield (EUA, 1945 ~)
“The Wise Heart”, Tricycle, verão 2008
(Tricycle's Daily Dharma, 21/12/2009)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Para que serve a doutrina de Buda

Em todos os ensinamentos do Grande Veículo, não há assunto à parte desses dois temas: descartar o "eu" e valorizar os outros. Além disso, toda a doutrina [do Buda] serve para eliminar as aflições. A raiz de todas as aflições é o "eu" e o auto-apego, então se sua conquista sobre isso é vasta, vasta será sua felicidade; se é média, média será; se for mínima, será mínima; e para aqueles que não pacificaram absolutamente nada, não haverá nenhuma felicidade.

Então é vital que você encare essa raiz de todos os sofrimentos e eventos negativos como um inimigo. No passado, você falhou em reconhecer isso. Hoje, como é dito a seguir, você reconhece seu inimigo graças à instrução do mestre espiritual:
Foi-se o tempo em que
Você podia me destruir a vontade.
Sangye Gompa (Tibete, ano 1179 - 1250)
"Explicação pública sobre o treinamento da mente"
"Mind Training"

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Quem nossas ofensas ferem

[…] Quando qualquer um de nós está no processo de ofender, difamar ou rebaixar alguma outra pessoa, independentemente das qualidades dessa outra pessoa, com esse mesmo ato ofensivo estamos revelando nossas próprias falhas.

Os próprios atos de xingar, desdenhar, falar mal e por aí vai, são maneiras de revelarmos nossos defeitos. Se você apertar uma cobra, seus membros — que costumam permanecer ocultos — irão ficar protuberantes. Do mesmo modo, assim que pressionamos alguém com ofensas, nossas próprias falhas ficam protuberantes.

Como seguidores do Buda, é inapropriado para nós continuar com essa tendência de ofender e falar mal. Quando atiramos as flechas do desprezo, a primeira pessoa que elas ferem somos nós mesmos. Palavras afiadas são como uma espada de dois gumes. Pensando "realmente tenho uma boa espada", você pode elevar o sabre da sua fala, mas assim que recua para acertar alguém, a parte traseira te corta no meio.
Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)
"Natural Liberation", parte 2 | 5