Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Eu e outro

[...] não há a menor razão para afirmar que a noção de "eu" deve ser aplicada a mim e não a outro. "Eu" e "outro" não são nada mais que uma questão de conceitos rotulados. O meu "eu" é o "outro" para outra pessoa, e quem para mim é o "outro" é o "eu" de outra pessoa.

As noções de "aqui" e "lá" são meros pontos de vista, designados pela mente, um em dependência do outro. Não há algo como um "aqui" absoluto ou um "lá" absoluto. É apenas uma questão de atribuição. E, assim, sobre esse ponto crucial, o Dharma ensina que quando o "eu" é atribuído como sendo os outros -- especificamente, seres sencientes -- a atitude de aceitá-los e vê-los como nós mesmos vai surgir naturalmente.

É assim que Budas e Bodisatvas reivindicam os seres sencientes como sendo eles mesmos, do modo explicado acima. Então, mesmo a mais leve dor dos outros, para eles é como se todos os seus corpos estivessem em chamas. E eles não têm a menor hesitação nisso, como quando Buda afirmou ser o cisne que Devadatta derrubou com uma flecha.

Kunzang Pelden (Tibete, 1872-1943)
"The Nectar of Manjushri's Speech", 8| 93

Leia mais sobre esse assunto em:
- Expansão da consciência

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Poder da escolha

A qualquer momento você pode escolher seguir a cadeia de pensamentos, emoções e sensações que reforçam a percepção de si mesmo como vulnerável e limitado, ou você pode lembrar que sua verdadeira natureza é pura, não condicionada e incapaz de ser ferida.

Você pode permanecer no sono da ignorância ou se lembrar que você está -- e sempre esteve -- acordado. De qualquer modo, você ainda está expressando a natureza ilimitada de seu verdadeiro ser. Ignorância, vulnerabilidade, medo, raiva e desejo são expressões do potencial infinito de sua natureza buda.

Não há nada inerentemente errado ou certo em fazer essas escolhas. O fruto da prática budista é simplesmente o reconhecimento que essas e outras aflições mentais são nada mais nada menos do que escolhas disponíveis para nós porque nossa verdadeira natureza é infinita em alcance.

Escolhemos a ignorância porque podemos. Escolhemos o estado desperto porque podemos. Samsara e nirvana são simplesmente diferentes pontos de vista baseados nas escolhas que fazemos sobre como analisar e compreender nossa experiência.

Não há nada mágico no nirvana e nada ruim ou errado no samsara. Se você está determinado a pensar em si mesmo como limitado, medroso, vulnerável ou assustado pelo passado, saiba apenas que você escolheu fazer isso. A oportunidade de vivenciar a si mesmo de modo diferente está sempre disponível.

Yongey Mingyur Rinpoche (Nepal, 1975 ~)
"Joyful Wisdom", 3 | 12

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Controle das emoções

Agora, qualquer emoção pode surgir apenas como um minúsculo pensamento ou sentimento, que depois cresce cada vez mais forte. Se você puder reconhecer esse pensamento no exato instante em que ele surge, será fácil deixá-lo se acalmar de novo.

Uma emoção reconhecida nesse estágio é como um pequeno emaranhado de nuvens em um céu limpo e vazio, que não vai produzir nenhuma chuva.

Se, por outro lado, você permanecer inconsciente de tais pensamentos e deixá-los se expandir e multiplicar, rapidamente haverá uma sucessão de pensamentos e sentimentos, cada um aumentando o anterior, e você vai achar cada vez mais difícil não apenas interromper a construção dessa emoção como também de impedir as ações negativas que ela pode induzir.

Como o "Ornamento dos Sutras Mahayana" alerta: "Emoções destroem a pessoa, os outros e acabam com a disciplina".

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 - Butão, 1991)
"The Heart of Compassion", v. 35

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Conhecer o Dharma não basta

Conhecer o Dharma não é suficiente; você precisa praticá-lo. Desista do samsara! Visitar ilhas no mar sem trazer de volta as jóias não tem sentido. A qualidade dos homens e mulheres agora fica clara. Já que estamos separando homens e mulheres daqueles que estão desperdiçando suas vidas, apenas relaxar é inútil, não faça isso! Trabalhar para este mundo não serve a nenhum propósito.

O tempo de se preparar para a eternidade é agora! Filho, conscientemente se engaje em austeridades. Essa é a maneira de escapar do samsara. Decida de uma vez por todas agora. Você não vai estar sempre com o Lama. No meu caso, realizei prática na maior parte do tempo. Você também siga meu exemplo. Não há tempo em uma vida humana. Abandone a fraqueza e a preguiça.

Agora, quando o Buda Dharma está brilhando como o sol, é o tempo para se destacar. Instrução para as pessoas é raro! Povo de Tingri, acorde! Quando o Mendigo Acharya tiver partido, vocês vão pensar em muitas perguntas a fazer. Já que pedi que as minhas instruções sejam escritas, façam isso. Serão úteis mais tarde.

Conte com as Três Jóias em seu coração, mente e todo o seu ser. O poder das bençãos vai surgir. Quando for jovem trabalhe duro conscientemente; quando ficar velho, não vai se arrepender. Se associe com o Lama por um longo tempo. Quando as ilusões surgirem, aplique bem os antídotos; com o tempo, isso vai se tornar automático.

O que quer que faça jamais abandone o entusiasmo que é como uma armadura, e você vai conquistar tudo! Este é o tempo de realizar austeridades conscientemente; isso terá muito significado para você.

Pense nos sofrimentos do samsara, e gere fé clara. Cuidadosamente, medite sobre a impermanência e siga com perseverança. Conscientemente, diminua o auto-apego, e você se libertará de suas marcas. Tenha força no coração e coma de uma vez agora para garantir centenas de futuras refeições. Aumente a duração da sua prática; não há dúvida sobre os resultados.

Padampa Sangye (Índia/Tibete, séc. XII)
"Instruções do Espelho da Mente"
"Lion of Siddhas"

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Identidade e interdependência

As raízes de todas as coisas vivas estão amarradas juntas. Profundamente na base dos seres, elas se entrelaçam e se abraçam. Essa compreensão é expressa com o termo não-dualidade. Se olhamos profundamente, descobrimos que não temos uma identidade separada, uma identidade que não inclua sol e vento, terra e água, criaturas e plantas, um e outros.

Joan Halifax Roshi
"Essential Zen"
(Tricycle's Daily Dharma, 03/07/2009)